As fragrâncias gourmand estão entre as favoritas do consumidor brasileiro. “Seu sucesso vem da capacidade de transformar perfume em experiência. Elas marcam presença, seduzem e despertam memórias afetivas e momentos felizes: o cheiro de um bolo recém-assado, do caramelo no café ou do chocolate derretendo. Há algo muito reconfortante nisso. É um vício olfativo que provoca água na boca e isso atrai muitas pessoas”, diz Lucia Lisboa, head de fragrâncias finas da Givaudan na América Latina.
Ela diz que, em um mundo tão acelerado, estamos cada vez mais buscando prazeres imediatos e o escapismo que essas notas mais literais proporcionam estão presentes em fragrâncias ultradoces e mega gourmand que chegam às prateleiras do mercado nacional.
Um bom exemplo vem da Dailus. A marca, que se inspirou em gelatos para lançar no ano passado a linha Sweet Skin Ice Cream, ampliou recentemente a coleção com body splashes, sabonetes esfoliantes e hidratantes corporais nos “sabores” Sundae de Cereja, Creme de Baunilha e Torta de Limão.
Perfumistas traduzem aromas culinários sem perder sofisticação
“A perfumaria gourmand hiper-realista abraça narrativas gastronômicas de forma deliberada e, com refinamento técnico, hoje os perfumistas conseguem traduzir aromas culinários com precisão, sem perder a sofisticação. Essas fragrâncias não são apenas ‘doces’, mas composições que buscam reproduzir texturas, contrastes e emoções ligadas a uma experiência, seja a crocância de um cookie, a acidez brilhante de uma torta de limão ou a cremosidade sedosa de uma mousse”, explica Lisboa.
Já a marca árabe de perfumaria Lataffa trouxe recentemente para o Brasil a linha Give Me Gourmand, com seis fragrâncias indulgentes, como Cookie Crave e Berry On Top. Com embalagens colecionáveis que representam verdadeiras sobremesas, a coleção explora notas comestíveis – como fudge de chocolate, cupcake de baunilha e geleia de morango – para proporcionar experiências olfativas envolventes e viciantes.
“O brasileiro já vinha demonstrando, há um tempo, um gosto crescente por fragrâncias mais doces, mas fomos surpreendidos com a resposta do público, que foi ainda melhor do que imaginávamos”, afirma Maria Jaber, diretora de marketing da Rebaj, distribuidora da Lattafa.
As expectativas superadas podem ter um outro fator. “Vivemos um momento de forte controle físico e alimentar impulsionado pela popularização das canetas emagrecedoras no Brasil e uma cultura geral de bem-estar. Mas o nosso cérebro não aceita o ’vazio’ facilmente”, aponta a executiva da Givaudan.
“Se não podemos consumir o doce no prato, nós o usamos na pele”
Lisboa explica que, quando os medicamentos para emagrecer limitam o apetite físico, nosso sistema de recompensa, que costumava obter picos de dopamina através da comida e do açúcar, busca outras vias de satisfação. “As fragrâncias gourmand, com suas notas magnéticas, funcionam como um perfeito ’hack’ sensorial. Ao borrifá-las, ativamos essa mesma cascata de prazer e conforto no cérebro, mas com zero calorias ou culpa. Na era da restrição, o gourmand é sobremesa olfativa de luxo: se não podemos consumir o doce no prato, nós o usamos na pele”.
Para ela, a indústria brasileira tem atendido de forma bastante ativa e estratégica ao crescimento dessa demanda, que não deve perder relevância no futuro. “Essas respostas não se limitam a simplesmente ‘adoçar’ fórmulas. Há um investimento claro em desenvolvimento técnico para criar acordes mais sofisticados, em pesquisa sensorial para entender preferências locais e em comunicação que conecta o produto a narrativas de lifestyle, identidade e prazer, transformando esses perfumes em objetos de desejo.”




















