Quando a advogada Marina Miranda começou a sentir um zumbido no ouvido, não imaginava que a causa poderia estar relacionada a um produto capilar. Nem ela, nem os médicos que, por quase um ano, não chegavam ao diagnóstico para seu incômodo, cada vez mais constante.
Apaixonada por cosméticos, ela assistia a uma série documental sobre ingredientes potencialmente tóxicos em fórmulas de beleza quando viu que muitas usuárias de uma marca específica de haircare relatavam problemas no ouvido e até perda de audição. Era a mesma que ela usava.
“Foi um momento de indignação. Eu não podia acreditar que a marca que eu confiava, que trazia para minha casa e indicava para as amigas podia estar me deixando com dores horríveis no ouvido e um zumbido enlouquecedor. A partir daí, passei a estudar loucamente tudo o que tinha por trás dos cosméticos, mas eram mais de 30 mil ingredientes aprovados pela Anvisa. Comecei a pensar, então, o que poderia fazer para trazer essa informação de forma clara, rápida e acessível para população e foi assim que a ideia da Be Clean nasceu”, afirma a empreendedora.
Acesso a informações detalhadas sobre os ingredientes dos cosméticos
A plataforma começou a ser desenvolvida em 2023, em parceria com o Senai, e o aplicativo, disponível gratuitamente para Android e iOS, acaba de ser lançado. “O app pode ser baixado gratuitamente no celular. Com ele, o consumidor consegue escanear o código de barra dos produtos e acessar informações detalhadas sobre seus ingredientes”, explica a fundadora.
Com base em critérios de saúde e impactos no meio ambiente, os cosméticos são analisados por seus componentes e recebem uma nota de 0 a 10, sendo 0 os mais recomendados. Eles também são sinalizados com cores: verde indica que é seguro; amarelo, que representa risco moderado; já a cor vermelha, mostra que têm alto potencial de afetar a saúde dos usuários e a natureza.
“Sempre que a pesquisa leva a um produto amarelo ou vermelho, o aplicativo indica um cosmético similar que tem a nota verde. Não queremos provocar medo ou preocupação, mas trazer informação para que o consumidor possa fazer suas escolhas de forma consciente”, diz Miranda, que ressalta que todos os dados são fundamentados em pesquisa de mercado, checagem em plataformas científicas e agências regulatórias e validados por especialistas da indústria cosmética.
Banco de dados deve atingir 100 mil cosméticos cadastrados em 2026
O aplicativo já foi lançado com um dos maiores bancos de dados de produtos cadastrados no Brasil, 20 mil itens. A meta, segundo a fundadora, é chegar a 100 mil até o final de 2026. “É um grande desafio, mas estamos trabalhando ativamente para ampliar nossa base e, se um produto não estiver disponível na plataforma, o próprio consumidor pode indicá-lo. Após fazermos a análise, o item será incluído ao banco.”
Miranda fala que, além da opção de escanear os códigos de barras, a pesquisa pode ser feita por ingrediente, marca ou categoria de produto, alertando para uma diferença sobre a perfumaria. “Por conta do segredo industrial, as empresas não precisam abrir a fórmula das fragrâncias e centenas de ingredientes podem estar na composição. Por isso, a não ser que a marca coloque a composição no rótulo, nós sinalizamos todos os perfumes com nota 7, trazendo essa explicação e artigos científicos que apontam que ele pode ser irritante, ter um disruptor endócrino e assim por diante”.
A fundadora da Be Clean enfatiza ainda que a plataforma é independente e imparcial. “Nosso objetivo é fornecer informação para a população fazer escolhas melhores. Mas esperamos que o resultado disso seja a indústria de cosméticos também fazendo escolhas melhores para a composição de seus produtos.”



















