Embora a tecnologia aplicada à beleza não tenha sido o setor mais representado na VivaTech — feira realizada em Paris entre 17 e 20 de junho —, ela despertou grande interesse do público, atraindo quase tantos visitantes quanto os robôs e outras inovações futuristas em exposição.

Investimentos maciços

Entre as novidades apresentadas pela L’Oréal está o K-Scan, um dispositivo inteligente criado pela Kérastase, principal marca de cuidados capilares do grupo. Alimentada por inteligência artificial treinada com aproximadamente 12 mil imagens de cabelos e couro cabeludo, a tecnologia realiza análises detalhadas para identificar necessidades específicas, avaliar a saúde capilar e até antecipar possíveis quadros de queda de cabelo.

A poucos metros dali, um dispositivo da Lancôme (outra marca emblemática do grupo L’Oréal), o Cell BioPrint, que será lançado comercialmente neste verão, promete determinar a idade biológica da pele a partir de uma simples amostra coletada em sua superfície... e, assim, sugerir os produtos de cuidados com a pele mais adequados. Aqui também, a tecnologia assumiu um papel preditivo.

"Para atrair clientes às lojas, é preciso oferecer personalização. E, hoje, personalização significa compreender a idade biológica da pele. Sem inteligência artificial, isso simplesmente não seria possível", afirmou Éric Briones, especialista no mercado de luxo.

Isso, evidentemente, depende da existência de uma plataforma tecnológica sólida, cuja construção exige investimentos expressivos e alianças com gigantes da tecnologia. Foi nesse cenário que a L’Oréal anunciou, na quarta-feira, 17 de junho, primeiro dia da VivaTech, uma parceria com a OpenAI, criadora do ChatGPT. No ano passado, empresa francesa investiu 1,5 bilhão de euros (1,7 bilhão de dólares) em tecnologia e aproximadamente 1,4 bilhão de euros (1,6 bilhão de dólares) em pesquisa e inovação.

"Respostas hiperpersonalizadas"

"Estamos constantemente interessados nos avanços da ciência e da tecnologia e buscamos maneiras de utilizá-los para construir uma vantagem competitiva", disse Guive Balooch, vice-presidente de Tecnologia e Inovação Aberta da L’Oréal, à AFP.

Essa vantagem pode vir dos nossos laboratórios – por exemplo, através da nossa parceria de IA com a Nvidia, que nos ajuda a acelerar a descoberta de novas moléculas. Também pode resultar do trabalho dos nossos químicos no desenvolvimento de novas formulações, estender-se ao marketing e até melhorar as interações com os clientes, como ilustrado pela nossa parceria com a OpenAI em serviços alimentados por IA”, explicou.

A inteligência artificial também está remodelando a experiência de compra na Sephora, a maior varejista de cosméticos do mundo e subsidiária do grupo francês de luxo LVMH. Nos Estados Unidos, a empresa lançou recentemente um aplicativo com tecnologia ChatGPT, desenvolvido para fornecer dicas de beleza personalizadas.

"Você conversará com um agente que poderá responder a todas as suas perguntas com respostas altamente personalizadas. E quanto mais o sistema o conhecer, mais relevantes se tornarão as respostas", explicou Gonzague de Pirey, diretor de Dados e Omnicanalidade da LVMH.

A tecnologia permitirá que os clientes experimentem produtos virtualmente, analisem a própria pele por meio de escaneamentos digitais e recebam recomendações personalizadas. A beleza está se tornando cada vez mais digital e aproximando-se progressivamente do universo da saúde estética”, destacou Franck Le Moal, diretor de Informação da LVMH.

Um sinal claro da transformação em curso é o crescente interesse das gigantes da tecnologia por um setor que se posiciona na fronteira entre beleza, saúde e bem-estar. Na VivaTech, a Samsung, da Coreia do Sul, exibe uma série de inovações, incluindo uma ferramenta de análise de pele e couro cabeludo alimentada por inteligência artificial, criada pela Becon, startup incubada em seu programa interno de empreendedorismo.

"Acredito que os players de IA perceberam que a beleza é fundamental para alcançar a viabilidade econômica", afirmou Eric Briones.