Qual a semelhança entre uma barra de chocolate "sustentável" e uma embalagem de plástico reciclado? Em princípio, nenhuma. Porém, algumas empresas que atuam nesses setores tão distintos se tornaram especialistas, para não dizer ferozes opositores, do chamado "balanço material" ou "balanço de massa" (mass balance, em inglês). Por trás desse termo, um método prático, mas complexo, de contabilizar o que é produzido por reciclagem ou as matérias-primas certificadas (orgânicas ou de comércio justo, por exemplo).
Produtos "frequentemente misturados"
A organização Fairtrade International explica em seu site que, no caso de alguns produtos, é difícil saber se, ao longo da cadeia produtiva, o cacau, o chá ou o açúcar seguem realmente o princípio de comércio justo e solidário. Diferenciar esses produtos de outros produtos fabricados pelo sistema tradicional poderia até prejudicar os produtores, principalmente em razão do custo do beneficiamento e/ou da logística, ressalta a organização.
Na verdade, os produtos Fairtrade são "frequentemente misturados" com produtos não provenientes do comércio justo e solidário, sobretudo em razão de "processos de fabricação complexos" e da "alta concentração do mercado" de industriais do setor.
Com o balanço de massa, as empresas têm a possibilidade, ao longo de todo o processo de fabricação, de misturar o cacau que recebeu certificação Fairtrade com um cacau não certificado, pois a única condição é que o volume vendido com o selo Fairtrade seja coerente com o volume dos insumos utilizados. A título de exemplo, na rede francesa de supermercados populares Lidl, a embalagem do chocolate comercializado com o selo "Fairtrade Max Havelaar" traz a seguinte explicação: "o cacau usado neste produto pode estar misturado, por razões técnicas de produção, com cacau sem certificação, mas o volume total de cacau é garantido aos produtores (de cacau Fairtrade, N. da R.), em conformidade com os critérios Fairtrade".
Por outro lado, uma barra de chocolate da marca Kaoka indica, na embalagem, que o produto é "garantido sem balanço de massa": "nossos insumos provenientes de comércio sustentável têm rastreamento físico integral e não são misturados com cacau e açúcar sem certificação Fairtrade". Para a Kaoka, "o uso generalizado do balanço de massa é preocupante", porque implica em "perda de informações para quem compra chocolate, perda de credibilidade para o comércio justo e solidário" e "concorrência desleal entre os produtores de cacau".
Esse método de cálculo não se limita à certificação de comércio sustentável. No final de junho, a União Europeia ratificou o seu uso para determinar a proporção de plástico reciclado realmente presente nas garrafas de plástico.
Neste caso também, os fabricantes alegam razões práticas: na saída da unidade de craqueamento a vapor — instalação petroquímica que transforma os hidrocarbonetos em moléculas elementares —, uma molécula de etileno derivada de plástico reciclado é idêntica a uma molécula derivada de matéria-prima virgem, explica a Plastics Europe, porta-voz do setor de plasturgia na Europa. Portanto, a única coisa que a Eastman, a ExxonMobil, a Ineos, a LyondellBasell e a TotalEnergies podem garantir é "a origem dos produtos provenientes de reciclagem", afirma Jean-Yves Daclin, diretor-geral da organização na França: por exemplo, 5% do material que entra na unidade de craqueamento a vapor.
Argumento de venda
Com o chamado "balanço de massa", cálculo da proporção de material reciclado, as empresas podem atribuir essa porcentagem de matéria-prima reciclada a uma fração dos produtos que saem da fábrica. Em outras palavras, podem declarar, por exemplo, que 5% do total dos produtos fabricados são 100% reciclados. Ou seja, os selos contêm essa informação, embora seja impossível saber qual a proporção de material reciclado presente num produto. O objetivo é usar essa explicação como argumento de venda para clientes que valorizam o princípio de reciclagem.
A Zero Waste Europe, ONG que atua em prol da redução de resíduos, considera que essa visão "pode acabar comprometendo" a definição de teor de material reciclado.
Para Lauriane Veillard, membro da organização, dizer que um produto é inteiramente reciclado sem saber qual o teor exato de material reciclado pode ser considerado como greenwashing ou "lavagem verde".
"Não nos parece correto afirmar que seja uma tentativa de enganar o público", responde Jean-Yves Daclin, da Plastics Europe. O que importa é ter o compromisso de "transparência absoluta em relação aos consumidores", diz ele, "para que não pensem que o produto apresenta um teor real de material reciclado, quando na realidade estamos falando de atribuir" uma proporção de reciclagem a uma determinada produção.
















