As jornalistas Rafaela Zampolli e Victória Abreu se apresentam como duas jovens vaidosas, que se interessam pelo mundo da beleza, sabem da importância que a maquiagem tem no dia a dia das mulheres e que o acesso a esses produtos não é tão simples para a população negra no Brasil. Por isso, elas lançaram o documentário “Racismo Cosmético: um retrato da dor de não se enxergar na indústria da beleza”, que está disponível no Youtube, no canal Nuances Reais.

A produção reuniu um time de especialistas em beleza e questões raciais para investigar como a exclusão estética ainda marca o cotidiano dos negros no Brasil. “O documentário identifica os motivos pelos quais a indústria cosmética ainda não atende plenamente às demandas das pessoas negras e demonstra como esse segmento pode revelar aspectos profundos da estrutura social do país”, afirma Zampolli.

O problema do racismo no Brasil é tão profundo e estrutural que o racismo cosmético é uma realidade. A exclusão talvez seja sua nuance mais escancarada, uma vez que a pessoa negra não consegue se encontrar ali”, diz Pedro Camargo, editor de beleza da Elle Brasil, um dos participantes do documentário.

Poder financeiro das pessoas pretas ainda é colocado em xeque no Brasil

Paola Deodoro, primeira mulher negra a se tornar editora de beleza no Brasil, traz um relato potente. “Fui ao evento de uma grande marca para o lançamento de uma base. Era um evento para editores de beleza, com vários maquiadores internacionais, uma bancada enorme e não tinha base para mim. Nunca ninguém pensou que haveria uma editora de beleza negra. As cores existem, só que acham que no Brasil elas não vão vender porque o poder financeiro das pessoas pretas ainda é colocado em xeque. A possibilidade de nos sentirmos bonitas está na mão da indústria e quando eles fazem isso, eles estão nos vetando a beleza.

Um caso recente de exclusão na indústria brasileira de cosméticos se deu com a Mascavo. Quando foi lançada, em outubro de 2024, a aguardada marca de maquiagem de Mari Saad não tinha na cartela produtos para peles negras retintas. A influenciadora e empresária se desculpou publicamente e agiu com agilidade. As tonalidades dos produtos foram ampliadas e, hoje, a marca é uma das mais inclusivas do mercado, contando com 36 tons de base, 24 de corretivo e 8 de blush e de contorno.

Os mesmos produtos que são feitos para pele branca, podem ser feitos também para pele negra. É só uma questão de colorimetria e interesse”, declara Tássio Camargo, jornalista de beleza, maquiador profissional e autor do livro “Tem da minha cor? Quando se maquiar se torna um ato político”.

Exclusão é estratégia racista e ruim no sentido mercadológico

Para ele, esse tipo de exclusão não faz nenhum sentindo. “Se você tem uma empresa, seu objetivo é lucrar e você está deixando de atender a mais da metade do Brasil, essa é uma estratégia que, além de racista, é muito burra no sentido mercadológico.

Camargo conta ainda que usava protetor solar, ficava com a pele esbranquiçada, mas seguia usando, porque achava que era o normal. “Eu nunca tinha parado para refletir, até que encontrei um protetor solar que não ficava esbranquiçado na minha pele.

Em 2023, Cicatricure Solar FPS 50 chegou ao mercado nas cores clara e média – a versão sem cor foi lançada em 2021. No final de 2025, a marca incluiu a opção de cor escura. “A chegada da Cor 3 representa um passo importante para atender melhor consumidores que buscavam um tom mais escuro. O lançamento é parte da evolução natural da linha e reforça o compromisso de Cicatricure em acompanhar as demandas do mercado e necessidades reais”, afirma a gerente de marketing Camila Fogaça.

Ela explica que o lançamento posterior da cor escura foi uma questão técnica. “O desenvolvimento de fotoprotetores com cor envolve o desafio de garantir que o pigmento ofereça o tom adequado sem comprometer a eficácia do FPS, a estabilidade da fórmula e a performance sensorial do produto. Optamos por um tempo maior para assegurar que a Cor 3 atendesse aos nossos padrões de qualidade, entregasse cobertura, uniformidade e segurança.

Para as realizadoras do documentário a inclusão e a diversidade no mercado de beleza brasileiro estão em processo de evolução. “Ainda persistem lacunas importantes. Elas aparecem não apenas na oferta de produtos, mas também no atendimento em lojas, na comunicação das marcas e na distribuição por parte do varejo. Houve avanços nos últimos anos, como retratamos no documentário. No entanto, falta um olhar mais amplo e integrado por parte das marcas e dos grandes grupos de beleza”, finaliza Abreu.