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Edição: Brasil
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Suzy Le Helley

Reformulação olfativa, um delicado exercício

Os perfumes clássicos — aqueles que, segundo dizem, nunca saem de moda — estariam em perigo? Diante da proibição, pela legislação europeia, de um número cada vez maior de ingredientes, sob o pretexto de que podem causar alergias ou irritações, e da crescente dificuldade de se adquirir determinadas substâncias naturais, os perfumistas estão sendo obrigados a repensar a fórmula de algumas estrelas do universo de fragrâncias. A reformulação olfativa é um trabalho de pura criação, que pode ser feito com alguns poucos testes ou exigir meses ou anos de dedicação, como explica Suzy Le Helley, perfumista da Symrise.

Para obter um resultado perfeito, o perfumista precisa conhecer bem sua (...)

Para obter um resultado perfeito, o perfumista precisa conhecer bem sua paleta de ingredientes e usar associações muitas vezes surpreendentes, a fim de recriar a fragrância e o efeito de determinadas substâncias durante a evaporação.

Quais são os motivos que têm obrigado as marcas a reformular alguns de seus perfumes?

Suzy Le Helley - O principal motivo é a conformidade para com a legislação. As grandes empresas do setor seguem as diretrizes da IFRA (Associação Internacional de Fragrâncias), que periodicamente são atualizadas. Na verdade, estamos atualmente em plena transição entre o aditamento IFRA 48 e IFRA 49. Com base nos dados científicos do RIFM (Instituto de Pesquisa de Materiais para Fragrâncias), a IFRA publica normas destinadas a reduzir ou proibir o uso de certas matérias-primas em perfumes, a fim de garantir a segurança dos consumidores.

Um dos exemplos mais notórios é a restrição de alergênicos como o Citral, presente em muitos insumos naturais, como gengibre, erva-cidreira e limão. Recentemente, o Lilial também passou a ser proibido. É difícil substituir esse ingrediente, porque é uma molécula com excelente desempenho.

Regularmente, são descobertos novos alergênicos que engrossam a lista, aumentam as restrições e nos obrigam a reformular certos perfumes. A IFRA proíbe também algumas matérias-primas. Por exemplo, há alguns anos os perfumistas podiam usar o absoluto de folha de figo. Hoje, esse ingrediente é proibido por ser fototóxico.

Mas existem também outros motivos. Às vezes, temos dificuldade em adquirir certos ingredientes, por exemplo porque um fornecedor decide interromper a venda de bases antigas. Sem falar que a natureza tem seus caprichos e pode parar de produzir certas substâncias naturais, principalmente como consequência das mudanças climáticas. A indústria química também está sujeita a imprevistos, o que pode impactar o abastecimento. Como vemos, a maioria desses fatores independe do controle dos perfumistas.

Em que medida a reformulação de perfumes é uma forma diferente de criatividade?

Suzy Le Helley - A reformulação é um exercício muito mais difícil do que parece, a tal ponto que se tornou parte integrante da profissão de perfumista. Não é raro que nos peçam um resultado final ligeiramente diferente, um pouco mais floral, mais difusivo, mais cremoso... No caso da reformulação, o desafio é fazer igual, mudar sem mudar, sem desfigurar o produto, porque alguns consumidores costumam comprar o perfume há muitos anos e o conhecem como a palma da mão. Portanto, não podemos decepcioná-los, e esse é o grande desafio.

Para obter um resultado perfeito, o perfumista precisa conhecer bem sua paleta de ingredientes e usar associações muitas vezes surpreendentes, a fim de recriar a fragrância e o efeito de determinadas substâncias durante a evaporação. Portanto, o perfumista precisa ser criativo, de forma a produzir uma ilusão, e mostrar-se extremamente meticuloso em seu trabalho. É um exercício que requer tempo para se chegar a um bom resultado e que obriga o perfumista a transpor seus próprios limites e a conhecer muito mais que sua paleta tradicional de ingredientes, com um nível de expertise também muito alto.

Reformulação e tecnologia?

Suzy Le Helley - A reformulação cria um excelente canal de expressão para substâncias sintéticas exclusivas das marcas, pois oferece uma oportunidade a mais para utilizá-las. A título de exemplo, nos últimos anos a indústria viu surgirem muitas substâncias que simulam o perfume de lírio-do-vale. A estratégia das empresas priorizava claramente a retirada do Lyral e do Lilial, com o objetivo de oferecer aos perfumistas uma nova ferramenta capaz de substituí-los. Na Symrise, desenvolvemos o Lilybelle®, ingrediente exclusivo obtido por um processo de química verde, a partir da reciclagem de cascas de laranja produzidas pela indústria de suco de fruta.

Os fabricantes têm o dever de informar o consumidor sobre a reformulação do perfume?

Suzy Le Helley - Costumo defender a transparência e a didática, mas a questão é delicada. Na minha opinião, cabe às marcas explicar esse processo, mas sei o quanto é difícil. No fundo, ninguém gosta de mudança. Todos nós preferimos continuar usando um perfume que seja idêntico a sua fórmula original.

A preservação desse patrimônio olfativo é um importante desafio, e é fascinante ver, ainda hoje, perfumes que têm pela frente muitas décadas de sucesso.

(Tradução: Maria Marques)

© 2020 - Brazil Beauty News - www.brazilbeautynews.com

Sobre Suzy Le Helley

Suzy Le Helley é perfumista Fine Fragrances na Symrise.

Depois de estudar no ISIPCA, principal estabelecimento francês de formação de futuros perfumistas, e de completar seu aprendizado durante alguns anos na escola de perfumaria interna da Symrise, em Holzminden (Alemanha), Suzy volta a Paris para trabalhar na reformulação de perfumes e na identificação de novos ingredientes naturais.

Conheça sua bio em cinco datas:

2001
Aos dez anos, sua brincadeira preferida é "adivinha o que tem no seu prato", que progressivamente evolui da visão para o paladar e depois para o olfato.

2008
Nos últimos anos do ensino médio, descobre a profissão de perfumista.

2012
Ingressa no ISIPCA e trabalha em alternância, durante dois anos, como avaliadora de fragrâncias na Mane.

2014
Entra para a escola de perfumaria da Symrise em Holzminden, na Alemanha, onde segue um aprendizado criativo e extremamente técnico.

2018
É contratada pela Symrise Paris e trabalha nos setores de reformulação regulatória, desenvolvimento da ferramenta Philyra (IA) e matérias-primas naturais.

Suzy contribui para o desenvolvimento e a integração de várias matérias-primas naturais originárias de Madagascar, como essência de vetiver, mandarina obtida por técnicas manuais e pimenta-verde fresca.

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