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Edição: Brasil
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Rémi Pulverail

Baunilha de Madagascar - fim da crise... ou ainda não?

Na esteira do interessante relatório publicado pela Aust & Hachmann em novembro (Vanilla Market Update - November 2018), gostaríamos de enfatizar alguns aspectos que, ao nosso ver, merecem reflexão.

O relatório é bastante otimista. Desnecessário dizer que todos nós desejamos o fim desta crise inabitual, visto que não traz vantagens para ninguém. No entanto, alguns elementos mais pessimistas (infelizmente) também precisam ser analisados para que se tenha uma ideia clara da situação:

A crescente demanda por favas verdes colhidas prematuramente vem alimentando a crise, e os principais usuários precisam estar conscientes das consequências dessa situação. Em julho deste ano, centenas de toneladas de favas verdes foram compradas pelos principais fabricantes de aromas e fragrâncias (na maioria das vezes por preços irrisórios), escoando a produção local do que se costuma chamar de "favas de maturação rápida". O processo consiste basicamente em cortar e aquecer as favas ainda verdes em fornos, a fim de aumentar o teor em vanilina. O produto resultante desse processo convém à indústria por ser mais barato e pela rapidez com que pode ser obtido, evitando a espera de cinco ou seis meses que exige o processo de curagem tradicional. O inconveniente desse mercado em rápida expansão é que a renda obtida pelos agricultores é muito menor quando eles vendem favas ainda verdes do que quando elas estão maduras. Consequentemente, os agricultores sempre farão o possível para manter os preços bem altos, a fim de compensar os prejuízos. Para piorar, os preços extremamente altos das favas verdes registrados no mercado em julho passado serviram de referência para todos os protagonistas do segmento. Por último, no longo prazo, existe o risco de que as técnicas tradicionais de curagem das favas acabem se perdendo pelo fato de os agricultores não as utilizarem mais, o que seria um problema sério do ponto de vista ético e de sustentabilidade.

As vendas do produto a granel, que têm início mais ou menos em outubro (quando as favas maduras são vendidas pelos agricultores aos exportadores), foram prejudicadas por essa expansão do mercado de favas verdes, na medida em que os agricultores se mostraram reticentes a reduzir os preços de maneira significativa.

Por enquanto, os outros países que tradicionalmente produzem baunilha (apesar da alta histórica dos preços) não conseguiram se posicionar como concorrentes sérios de Madagascar (em termos de volume e até de qualidade). Portanto, a indústria ainda depende em alto grau desse país e suas instabilidades - e isso não é uma boa notícia. Talvez devêssemos nos perguntar por que os fabricantes de aromas e fragrâncias não conseguiram desenvolver seus planos de abastecimento "sustentável" em outros países a fim de diversificar os riscos, especialmente considerando os preços exorbitantes em vigor em Madagascar.

Nessa fase, a floração é longe de ser satisfatória, tanto na região de SAVA [1] como em outras regiões produtoras, em particular Mananara (o próximo polo produtor de baunilha, segundo especialistas). Isso constitui uma ameaça significativa para a próxima safra.

Mais do que nunca, os compradores adquirem a baunilha por preços extremamente baixos, e cada vez menos aceitam conceder financiamentos aos fornecedores. Essa questão tem uma importância vital em todos os níveis da cadeia de suprimentos.

Um dos principais fatores que poderiam aliviar a pressão que o mercado vem sofrendo é dar mais visibilidade aos negociadores locais, pelo menos em termos de volume contratado. Aliás, no âmbito da sustentabilidade esse é um tema muito importante, embora, aparentemente, seja irrelevante para o grupo SVI (Sustainable Vanilla Initiative).

Não podemos esquecer que as eleições presidenciais ainda não chegaram ao fim e que o resultado é uma incógnita — tanto quanto as questões climáticas que potencialmente surgirão.

Entre janeiro e março, em geral a região é assolada por ciclones e chuvas torrenciais vindos do leste. De um ponto de vista pessimista, isso é péssimo, pois a situação pode piorar ainda mais. De um ponto de vista otimista, na melhor das hipóteses esses eventos não afetarão em nada o atual cenário. Uma coisa é certa: melhorar é que não vai.

O que se sabe, por hora, é que a qualidade da safra de 2018 é muito boa, o que há muito tempo não se via.

Esses fatores não podem ser ignorados.

Rémi Pulvérail
(Tradução: Maria Marques)

Observações

[1A região que abrange as cidades de Sambava, Antalaha, Vohemar e Andapa

© 2018 - Brazil Beauty News - www.brazilbeautynews.com

Sobre Rémi Pulverail

Formado pela escola de perfumistas Charabot, na cidade francesa de Grasse, Remi Pulverail acumula mais de 20 anos de experiência na indústria de perfumes, trabalhando principalmente para grandes nomes do setor. Ao longo de sua carreira, sempre fez questão de cultivar laços sólidos e intensos com os produtores das melhores matérias-primas olfativas de origem natural do mundo.

Durante mais de dez anos, Remi Pulverail dirigiu a equipe Global Purchasing da Givaudan, onde monitorava as operações de abastecimento de ingredientes naturais, bem como projetos específicos destinados a preservar cadeias de abastecimento sensíveis e a implementar programas de abastecimento ético lançados por ele. A inovação em matéria de ingredientes era um dos alicerces de sua atividade e deu origem a parcerias exclusivas cujo objetivo era fornecer novos extratos aos profissionais de criação que atuam no segmento de perfumaria fina.

Atualmente, Remi Pulverail exerce como autônomo, depois de ter criado sua própria empresa, o Atelier Français des Matières, baseado em um modelo alternativo voltado para o segmento de Alta Perfumaria.

Site: www.atelier-francais-des-matieres.fr

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