Numa tarde de 1912, Jacques Guerlain caminhava pela Pont-Neuf, em Paris, quando foi tocado pela bela paisagem do Rio Sena se unindo ao céu pela “hora azul”. O então perfumista da Guerlain quis eternizar a emoção despertada por aquele breve instante logo após o pôr do sol e criou a fragrância L’Heure Bleue.

Em 2026, Delphine Jelk, diretora de criação de perfumes da Guerlain, revisitou essa emoção, lançando uma nova versão da fragrância. “Vejo essa criação não como uma reinterpretação, mas uma homenagem ao L’Heure Bleue de Jacques Guerlain. É uma fragrância extraordinária, com um nome e uma inspiração igualmente extraordinários. Senti que ela merecia voltar aos holofotes e criar um novo capítulo foi minha maneira de homenageá-la.”

Para a perfumista, as duas fragrâncias compartilham a mesma alma. “Mas agora, eu tenho acesso a uma paleta de ingredientes muito mais ampla. Isso me permitiu expressar algo que Jacques Guerlain não conseguia na época: o cheiro do próprio céu.”

O novo L’Heure Bleue traz um inédito acorde ozônico. “Não estamos falando simplesmente da fragrância original com uma nota ozônica adicionada. Reelaborei seu coração olfativo, utilizando ingredientes e as possibilidades criativas atuais para oferecer uma expressão contemporânea da mesma emoção atemporal.”

Íris, ou “ouro azul”, é ingrediente precioso na perfumaria

No coração da nova fragrância está a íris, conhecida como o "ouro azul" da perfumaria. “Ao contrário de muitas outras flores, não são as pétalas da íris que usamos, mas os rizomas, ou seja, a parte subterrânea da planta. São necessários aproximadamente três anos de cultivo, seguidos de outros três anos de secagem antes que eles possam ser processados. Esse longo e exigente processo é o que torna a íris um ingrediente tão precioso”, explica a diretora.

A íris é um ingrediente icônico na Guerlinade – a assinatura olfativa da Guerlain – e surge de forma dupla na composição, como uma manteiga e uma tintura, criada com exclusividade pela marca. “A manteiga de íris é magnífica, com seu caráter rico e atalcado. Mas, para L’Heure Bleue, eu queria revelar uma expressão diferente, que fosse mais cristalina, fresca e arejada”, fala Jelk.

Foi na Itália que a perfumista encontrou os rizomas de íris ideais para sua criação. “Levamos três anos entre pesquisa e desenvolvimento, trabalhando em estreita colaboração com nossas equipes na fábrica da Orphin (situada a cerca de 60 km de Paris), para aperfeiçoar o método de criação de nossa tintura de íris, cuja volatilidade permite que o ingrediente se expresse desde a abertura da fragrância.”

Ingrediente natural é macerado em álcool para extrair sua fragrância

Ela explica que a tintura é uma técnica bastante tradicional, que consiste na maceração de uma matéria-prima natural em álcool para extrair sua fragrância. Cada tintura tem sua receita específica, com proporções e tempo de maceração adaptados às características do ingrediente e ao resultado olfativo desejado.

“A tintura se tornou uma técnica rara na perfumaria. Embora grande parte desse savoir-faire tenha se perdido gradualmente, na Guerlain, nós preservamos essa expertise por mais de um século, sendo uma parte importante de nossa herança histórica.”

Jelk fala que L’Heure Bleue é a primeira fragrância em que utilizou a tintura exclusiva de íris, mas que o ingrediente deve voltar a aparecer no portfólio da Guerlain. “É uma matéria-prima belíssima, que abre novas possibilidades criativas, e pretendo explorar plenamente seu potencial em futuras criações.”