Banhado pelo sol de julho, o planalto conhecido como Plateau d’Albion, na França, é o palco de um ritual que, nessa época, atinge o máximo de atividade. Nos campos, a colheita de cada variedade de lavanda e de lavandim conta uma longa história de seleção, aperfeiçoamento de técnicas agrícolas e pesquisa olfativa.

Depois do processamento das flores, a SCA3P se encarrega da coleta dos óleos essenciais de lavanda e lavandim produzidos pelos membros da cooperativa, garantindo também o armazenamento em condições ideais de preservação e a comercialização do produto. Responsável por mais de um quarto da produção mundial de lavandim, a cooperativa, instalada na cidade de Apt, na região de Vaucluse, figura atualmente entre os protagonistas do setor. A entidade reúne cerca de 200 produtores e aproximadamente 50 destilarias — entre as quais a de Jérôme Boenle — que processam a colheita de seus proprietários e dos demais membros da cooperativa. A cadeia produtiva conta com o apoio ativo da dsm-firmenich, que mantém uma parceria duradoura na região de Provence com o objetivo de consolidar a produção local de plantas destinadas à indústria de perfumes.

A lavanda em toda a sua pluralidade

Planta símbolo das paisagens da Provence francesa, a lavanda é um vegetal que abrange diversas espécies, muitas das quais são cultivadas de formas diferentes, apresentando perfis olfativos variados.

A lavanda fina, ou lavanda “verdadeira”, pertence à espécie Lavandula angustifolia. Naturalmente presente no Plateau d’Albion, onde cresce em campos de alta altitude (mais de 800 metros), essa espécie se reproduz a partir de sementes plantadas. No plano olfativo, a lavanda fina exala nuances de cânfora às quais se soma um efeito que lembra cogumelos. É a variedade mais cara, em razão do baixo rendimento: cerca de 20 kg de óleo essencial por hectare.

Paralelamente, existem diferentes lavandas “clonais”. Mas atenção: o termo não designa uma modificação genética! As lavandas clonais provêm de mudas de lavanda fina, selecionadas nos campos por suas qualidades olfativas ou por sua resistência, e propagadas pela técnica de estaquia. Entre essas variedades, estão a lavanda Maillette, que tem ampla presença no mercado atualmente, e a lavanda Diva Essence, mais recente.

Esta última, desenvolvida em colaboração com a dsm-firmenich, se destaca por ter um perfil mais floral, suave e sutil, e uma marcada faceta linalol, remetendo à bergamota. Além disso, ela oferece um melhor rendimento: cerca de 40 kg de óleo essencial por hectare. Essa variedade é fruto de um extenso trabalho de seleção realizado nos campos de cultivo, a partir de mudas de lavanda verdadeira que tenham se destacado por suas excepcionais propriedades. Em 2023, para criar a fragrância Burberry Goddess, a perfumista Amandine Clerc-Marie, da dsm-firmenich, associou a lavanda Diva Essence a três tipos diferentes de extrato de baunilha: infusão, absoluto e Firgood©. O sucesso desse perfume, premiado pela Fragrance Foundation France, contribui para garantir a continuidade da produção dessa variedade.

Foi também nas plantações de Jérôme Boenle que o mestre perfumista Fabrice Pellegrin buscou inspiração para criar a fragrância Bucoliques de Provence, da marca L’Artisan Parfumeur (2016). Essa criação reúne duas variedades de lavanda: a primeira produz um óleo essencial de grande frescor aromático e uma faceta limpa, enquanto a outra provém de campos situados nos arredores do município de Seillans.

A alfazema ou lavanda spike (Lavandula latifolia) cresce em altitudes mais baixas, de até 800 metros. Com notas bastante nítidas de cânfora e um aspecto que lembra o alecrim, ela tem um papel essencial na história de outra matéria-prima: o lavandim.

Lavandim, variedade híbrida de alto rendimento

O lavandim resulta do cruzamento natural entre a lavanda verdadeira e a lavanda spike. Essa planta estéril, que requer intervenção humana para se reproduzir, hoje domina amplamente alguns territórios de produção, em especial o planalto de Valensole, onde ocupa 90% a 95% das áreas cultivadas.

A outra característica importante do lavandim é o seu rendimento. Enquanto um hectare de lavanda verdadeira fornece cerca de 20 kg de óleo essencial, a produção do lavandim pode chegar a 150 kg ou até mesmo 200 kg. Essa diferença contribui para que ele seja considerado uma matéria-prima muito mais acessível.

A exemplo da lavanda, o lavandim também abrange muitas espécies. A variedade Grosso, amplamente presente no mercado, tem um caráter mais canforado do que o lavandim Super, em razão da influência da alfazema. A forma como a planta é colhida também altera o perfil olfativo do óleo essencial. Um bom exemplo é o lavandim Espieur, colhido por uma debulhadora que retira somente os elementos florais, separando-os das hastes, a fim de obter um óleo essencial mais floral, menos frio e herbáceo.

Em sua busca constante pela inovação em matérias-primas naturais, a dsm-firmenich desenvolveu o extrato Lavandin Pays Firgood®, que apresenta um perfil olfativo mais floral e menos canforado, muito semelhante ao da flor recém-colhida e esfregada na palma da mão, o que a torna perfeitamente adaptada aos produtos de perfumaria fina.

É importante ressaltar que os métodos de colheita da lavanda e do lavandim são diferentes. As flores e as hastes da lavanda fina são colhidas de forma a preservar a qualidade desejada, enquanto o lavandim é em geral triturado, principalmente para reduzir o volume de material a transportar e para agilizar a colheita. Esses procedimentos afetam diretamente o perfil olfativo da matéria-prima obtida.

Embora sejam plantas perenes, a lavanda e o lavandim são altamente sensíveis às condições climáticas. Um campo pode ser cultivado, em média, durante seis anos, às vezes por muito mais tempo. Na verdade, a vida útil depende de vários fatores, como doenças, clima e ano de plantação. O problema, hoje, é que as mudanças climáticas têm alterado o calendário de colheita: prevista normalmente para começar em meados de julho, ela já estava quase terminando quando a visita organizada pela dsm-firmenich foi realizada. As fortes ondas de calor afetam também o rendimento, obrigando os produtores a testarem novas soluções.